← Recursos Estratégia · Gestão Financeira 20 de julho de 2026 7 min de leitura

IES: os mesmos dados que entrega — servem para gerir a empresa.

Todos os anos a IES sai da contabilidade, é submetida no Portal das Finanças e fica por lá — uma obrigação cumprida. Mas os dados que a empresa reúne para a entregar são o retrato financeiro mais completo que produz no ano. Este guia mostra três formas concretas de os usar para gerir — calcular os rácios e segui-los ano a ano, aceder ao relatório setorial gratuito do Banco de Portugal, e ler a saúde financeira de clientes e fornecedores — sem trabalho novo, desde que os dados no ERP estejam limpos.

O que a IES já contém

Todos os anos a IES sai da contabilidade, é submetida no Portal das Finanças e fica por lá. Para a maioria das empresas termina aí: uma obrigação cumprida, um custo de 80 euros de registo da prestação de contas, e a atenção que passa para o assunto seguinte. Num artigo anterior cobrimos essa parte — o prazo de 15 de julho, os anexos, e como submeter a declaração a partir do Cegid Primavera sem os erros que atrasam a entrega. Este trata do que costuma ficar de fora: os dados que a empresa reúne para a IES são o retrato financeiro mais completo que produz durante o ano, e há formas concretas de os usar sem trabalho novo.

A IES agrega numa única declaração o depósito de contas no Registo Comercial, a informação fiscal e contabilística para a Autoridade Tributária, os dados estatísticos para o INE e a informação contabilística para o Banco de Portugal. Na prática, isso significa que a declaração inclui o balanço, a demonstração de resultados, a demonstração de fluxos de caixa e o detalhe da estrutura de custos e proveitos do exercício.

Duas características tornam esta informação útil para gerir, e não apenas para declarar. A primeira: segue as Normas Contabilísticas e de Relato Financeiro, por isso é comparável de ano para ano dentro da empresa e comparável com qualquer outra empresa que use o mesmo referencial. A segunda: desde a IES referente ao exercício de 2025, entregue em 2026, os anexos A e I passaram a ser alimentados pelo SAF-T da contabilidade, o que liga diretamente a qualidade da declaração à qualidade dos dados que estão no ERP ao longo do ano.

1. Ler os seus próprios números, ano a ano

Um valor isolado diz pouco. Uma autonomia financeira de 35% não é boa nem má em si mesma; o que interessa é se subiu ou desceu face ao ano anterior, e como se compara com o setor. Por isso o hábito que dá retorno é calcular meia dúzia de rácios a partir da IES e alinhá-los lado a lado com os dos anos anteriores. Todos saem de duas peças que a declaração já contém: o balanço e a demonstração de resultados. A seguir ficam os que mais dizem a um gestor de PME, com a conta que os produz e o que a variação de um ano para o outro costuma indicar.

Rendibilidade: o negócio dá lucro, e quanto

Margem operacional = Resultado operacional (EBIT) / Volume de negócios. Mostra quanto sobra da atividade, antes de juros e impostos, por cada euro faturado. Uma margem que desce enquanto o volume de negócios sobe é o sinal clássico de crescimento que não é rentável: vende-se mais e ganha-se menos por venda.

Rendibilidade dos capitais próprios (ROE) = Resultado líquido / Capital próprio. Mostra o retorno que o dinheiro dos sócios está a gerar dentro da empresa, e compara-se com o que esse capital renderia noutra aplicação. A leitura ano a ano diz se a empresa está a remunerar melhor ou pior quem a financia por dentro.

Estrutura financeira: quem financia a empresa

Autonomia financeira = Capital próprio / Ativo total. É o rácio que os bancos olham primeiro: indica que parte do ativo é financiada com capital próprio, e não com dívida. Quanto mais alta, menos dependente de terceiros. A tendência ao longo dos anos mostra se a empresa se está a capitalizar ou a endividar.

Solvabilidade = Capital próprio / Passivo total. Complementa a anterior: por cada euro de dívida, quanto existe de capital próprio a cobri-lo. Uma solvabilidade a cair de ano para ano avisa de um problema de estrutura cedo, muito antes de ele aparecer na tesouraria.

Liquidez: há com que pagar o que vence a curto prazo

Liquidez geral = Ativo corrente / Passivo corrente. Mede se os bens e direitos que se convertem em dinheiro dentro de um ano chegam para as dívidas que vencem no mesmo período. Abaixo de 1 significa que o passivo de curto prazo é maior do que o ativo de curto prazo, situação que merece atenção.

Liquidez reduzida = (Ativo corrente menos Inventários) / Passivo corrente. A mesma leitura, retirando os inventários, que nem sempre se vendem depressa. É útil sobretudo em empresas com muito stock, onde a liquidez geral pode parecer confortável só por causa das existências acumuladas.

Ciclo de exploração: quanto tempo o dinheiro fica preso

Estes três combinam o balanço com a demonstração de resultados e explicam a tesouraria melhor do que qualquer outro grupo.

Prazo médio de recebimentos (PMR) = (Saldo de clientes / Volume de negócios) × 365. Mede, em dias, quanto tempo em média a empresa leva a receber dos clientes. Se sobe de um ano para o outro, o dinheiro está a demorar mais a entrar, o que pressiona a tesouraria mesmo com as vendas a crescer. Uma nota de rigor: o saldo de clientes inclui IVA e o volume de negócios não, por isso, para uma leitura mais exata, multiplica-se o volume de negócios por (1 + taxa de IVA aplicável). Para acompanhar a tendência, a versão simples chega.

Prazo médio de pagamentos (PMP) = (Saldo de fornecedores / Compras) × 365. O espelho do anterior, do lado de quem a empresa paga. Comparar o PMR com o PMP mostra o desequilíbrio de tesouraria: se a empresa recebe a 70 dias e paga a 30, está a financiar os clientes com dinheiro próprio durante 40 dias.

Prazo médio de inventários (PME) = (Inventários / CMVMC) × 365. Quantos dias, em média, a mercadoria fica em armazém antes de ser vendida, usando o custo das mercadorias vendidas e das matérias consumidas. A subir, indica stock a acumular ou a rodar mais devagar — capital parado que podia estar disponível.

Como fazer a comparação valer

Calcular os rácios de um ano só serve para ter um ponto de partida. O valor aparece quando se colocam três ou quatro anos na mesma tabela e se olha para a direção de cada linha. Uma margem estável, uma autonomia financeira a subir e um PMR controlado contam uma história; uma margem a encolher com o endividamento a crescer contam outra, e permitem agir antes de o problema se instalar. Os números da IES são anuais, por isso esta é uma leitura de fundo, de ano para ano, não de gestão diária — para o acompanhamento semanal, ver controlo de gestão numa PME.

2. O relatório gratuito que o Banco de Portugal devolve

A comparação que a secção anterior faz por dentro da empresa, o Banco de Portugal faz contra o setor, e sem custo. A partir da IES de cada empresa constrói os Quadros da Empresa e do Setor, um relatório individualizado a que a empresa acede na área "Empresas" do site do Banco de Portugal com as mesmas credenciais do Portal das Finanças.

O relatório permite comparar os indicadores da empresa com os das empresas do mesmo setor de atividade e da mesma classe de dimensão, através de médias e de quartis, ao longo de dois anos consecutivos. Cobre indicadores de balanço, de demonstração de resultados e de fluxos de caixa, e um conjunto de rácios económico-financeiros — os mesmos que a empresa pode calcular por si. Inclui ainda a comparação com o mesmo setor noutros países europeus: Alemanha, Bélgica, Espanha, França e Itália.

O trabalho de reunir os dados já foi feito para cumprir a obrigação. Consultar os Quadros da Empresa e do Setor a seguir à submissão mostra onde a empresa está face aos concorrentes diretos em margem, endividamento, liquidez e rendibilidade. É o rácio que a empresa calculou, agora com o valor do setor ao lado para saber se está acima ou abaixo.

3. Ler as contas de clientes e fornecedores

As contas anuais que cada empresa deposita através da IES passam a ser públicas. Qualquer pessoa as pode consultar através da Certidão Permanente de Contas, com o número de identificação fiscal da empresa em questão.

Isto tem uso prático em duas decisões que os gestores tomam com frequência. Antes de alargar um prazo de pagamento a um cliente, é possível verificar a solidez financeira desse cliente — e os mesmos rácios de liquidez e solvabilidade servem para essa leitura. Antes de depender de um fornecedor para uma parte crítica da operação, é possível avaliar a sua estabilidade da mesma forma. A informação está disponível, e é a mesma que os bancos consultam quando analisam pedidos de financiamento.

4. A condição para tudo isto funcionar: dados limpos no ERP

Nada disto tem valor se os números da IES não forem de confiança. E aqui está a ligação que muda a natureza da obrigação.

Com o SAF-T da contabilidade a alimentar os anexos A e I, a IES deixou de ser um formulário preenchido no fim do ano e passou a ser o reflexo direto do que está lançado no ERP. Se a contabilidade está reconciliada e coerente ao longo do ano, a declaração sai correta e os rácios saem fiáveis. Se os lançamentos ficam por rever e as reconciliações se acumulam para a última semana, a declaração sai apressada, arrasta erros para o Portal das Finanças, e os rácios calculados sobre ela não servem para decidir nada.

Há ainda um ganho de frequência. Os rácios acima saem da IES uma vez por ano, mas os dados que os produzem estão no ERP em permanência. Com a contabilidade em dia, a margem, a autonomia financeira ou o prazo médio de recebimentos podem ser lidos em qualquer altura, e não só em julho a olhar para o ano anterior. A disciplina que a IES obriga é a mesma que torna a empresa capaz de acompanhar estes números ao longo do ano.

Foram entregues mais de 1,4 milhões de declarações IES em 2025. A diferença entre as que são só uma obrigação e as que também são uma ferramenta está quase sempre na qualidade dos dados na origem.

Em resumo

A IES é uma obrigação, e continua a sê-lo. Mas os mesmos dados dão para calcular os rácios de gestão da empresa e segui-los ano a ano, dão acesso a um relatório setorial gratuito do Banco de Portugal, e permitem ler a saúde financeira de clientes e fornecedores. Para quem gere com Cegid Primavera, essa informação vive no ERP durante todo o ano. Mantê-la consistente é o que separa uma declaração que se entrega e esquece de uma que também ajuda a decidir.

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